Para lá da morte… A decomposição

A morte é definida como um processo contínuo que ocorre ao longo de um período de tempo, uma vez que nem todos os órgãos e tecidos se tornam inviáveis ao mesmo tempo (1). Após a morte de um indivíduo, diversos fenómenos começam a ocorrer no cadáver. Existem os fenómenos cadavéricos imediatos que derivam da cessação das funções vitais e que vão desde o arrefecimento, rigidez cadavérica, livores e desidratação. Após os fenómenos imediatos, têm início os fenómenos tardios ou destrutivos que incluem a autólise e a putrefação (2).

A autólise consiste num conjunto de fenómenos fermentativos que têm lugar no interior da célula por ação das próprias enzimas celulares. É um processo de demolição molecular dos elementos orgânicos existentes na célula pela intervenção dos fermentos ou enzimas moleculares. Ao fim de algum tempo de evolução as enzimas chegam a atuar sobre si próprias, destruindo-se, terminando este processo e sendo substituído pela putrefação (1; 2).

A putrefação é consequência da atividade bacteriana e enzimática, sendo considerado um processo de fermentação pútrida. A atividade bacteriana é responsável pela produção de diversos gases (hidrogénio, amoníaco, metano, ácido sulfídrico, anidrido carbónico, nitrogénio), ácidos (fórmico, oleico, succínico, leucínico, acético, palmítico, butírico, láctico, oxálico, etc.), lactonas, sais de amónio, ácidos aminados (leucina, tirosina, glicocola), corpos aromáticos sem nitrogénio (ácido fenilacético, fenol, ácido fenilpropiónico, etc.) e ptomaínas que levam ao aumento do volume corporal (3).

Um dos primeiros sinais da putrefação é a coloração esverdeada, chamada mancha verde, na região da fossa ilíaca direita. Esta mancha é produzida pela ação do ácido sulfídrico sobre a hemoglobina sanguínea na presença do oxigénio do ar, levando à formação de sulfohemoglobina. Esta mancha inicialmente ocupa uma área muito reduzida, mas que acaba por se estender a todo o abdómen e tórax. Este primeiro período é conhecido como período colorativo ou cromático e surge habitualmente entre 24h a 48h após a morte podendo estender-se entre os 3 e os 15 dias, dependendo das condições climáticas (1).

Segue-se o período enfisematoso onde ocorre o desenvolvimento de grande quantidade de gases que invadem o tecido celular subcutâneo, inchando e desfigurando o cadáver, podendo ter uma duração de vários dias até duas semanas. Nesta fase podemos observar, entre outros fenómenos, inchaço da cabeça, exoftalmia, projeção exterior da língua e distensão do tórax e abdómen (1).

Na sequência do período enfisematoso dá-se início ao período coliquativo ou de liquefação, que geralmente pode durar entre 8 a 10 meses. Nesta fase a epiderme separa-se da derme, formando bolhas cutâneas de dimensões variáveis cheias de líquido de cor escura; os apêndices cutâneos, como as unhas e cabelo, soltam-se; existe a escorrência de uma serosidade escura pelos orifícios nasais e dos órgãos e ocorre a libertação de gases, levando à diminuição do volume corporal (1; 3).

Por fim, existe o período esquelético, que pode ter uma duração de 2 até 5 anos. As partes moles do cadáver desaparecem progressivamente através da liquefação. O conjunto de órgãos e vísceras vai-se destruindo ao mesmo tempo, mas com variações em função da resistência que a sua estrutura lhes confere (1; 2).

Todos estes períodos podem sofrer alterações temporárias, dependendo de influências individuais e/ou ambientais e devem ser vistos como uma sequência de fenómenos sobrepostos e combinados numa progressão ininterrupta até a matéria orgânica estar completamente decomposta e não como um momento distinto (3; 4).

As precauções universais para o manuseamento de materiais biológicos, tais como sangue e fluidos corporais, devem ser seguidas. Uso de vestimenta protetora descartável por cima do vestuário. Utilização de luvas especiais, como as resistentes à punctura ou específicas para determinadas substâncias químicas. Máscaras descartáveis com filtração deverão ser utilizadas para proteção respiratória de agentes biológicos com risco de aerolização. Óculos de segurança ou protetores faciais completos deverão ser utilizados para proteção das mucosas e olhos contra impactos de partículas volantes, respingos de produtos químicos e espirros de sangue e fluidos corpóreos (4).

Referências
  1. Cravo, Liliana Alexandra Simões. Estudo experimental sobre decomposição cadavérica usando carcaças de Sus scrofa domestica. 2015.
  2. Cavallari, Maria. Decomposição Cadavérica e Sucessão Ecológica: Análise da Entomofauna em Carcaças de Porcos (Sus Scrofa Domesticus) Intoxicados por Cocaína e Carbamato. São Paulo : s.n., 2018.
  3. Ferreira, Maria Teresa e Cunha, Eugénia. A decomposição cadavérica e as dificuldades de gestão dos espaços funerários. Antropologia Portuguesa. 2015.
  4. Biossegurança e desastres: conceitos, prevenção, saúde pública e manejo de cadáveres. Cardos, Telma, Costa, Fernando e Navarro, Marli. 4, Rio de Janeiro : Revista de Saúde Coletiva, 2012, Vol. 22.

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Autora: Dra. Joana Coelho | Mestre em Medicina Legal e Ciências Forenses pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra

Licenciada em Antropologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra e Mestre em Medicina Legal e Ciências Forenses pela Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC). Já integrou vários projetos na área da Identificação Humana, nomeadamente na área de Medicina Dentária Forense. Atualmente é Bolseira de Investigação na Área da Anatomia Normal na FMUC onde trabalha com cadáveres doados para fins de ensino e investigação.

PALAVRAS-CHAVE: Deathclean; Decomposição; Corpos; Morte; Fluidos Corporais; Odor; Putrefação; Cheiro; Cadáver.