SARS-CoV-2: Túneis de Desinfeção

Com o surgimento da pandemia da COVID-19 em todo o mundo, relatos do uso generalizado de túneis de desinfeção, com a pulverização de produtos biocidas desinfetantes nas pessoas ou o uso de radiação UV-C (luz ultravioleta), tem gerado uma crescente preocupação. As evidências disponíveis não demonstram que essas práticas são seguras e eficazes e além disso, o seu uso pode criar uma falsa sensação de segurança e apresentar riscos para a população.

Se o objetivo é reduzir a propagação do vírus descontaminando as roupas, os sapatos e a pele do público em geral, não há evidências de que a roupa seja um vetor importante para a transmissão. Se o objetivo é atacar o vírus nas vias aéreas, quais são as evidências de que uma aplicação externa de 20 a 30 segundos é eficaz e segura? Pois, simplesmente nenhuma!

Mesmo que uma pessoa esteja potencialmente exposta ao SARS-CoV-2, pulverizar a parte externa do corpo não mata o vírus que reside dentro dela. Também não há evidências científicas que sugiram que seja efetivo na desinfeção de roupas ou do corpo.

Não conseguimos encontrar evidências de eficácia da utilização deste método, pois o mesmo dependerá de muitas variantes, tais como, o objetivo da aplicação, o desinfetante escolhido, o tempo de permanência, o tipo de superfície, entre outras considerações. Atualmente, uma grande variedade de desinfetantes está sendo usada e onde todos os desinfetantes requerem, obrigatoriamente, um determinado período de contato, que não é respeitado e nem equacionado.

Por exemplo, ao usar vapor de peróxido de hidrogénio, nos processos de desinfeção em outros ambientes contaminados, é necessário um ciclo de mais de 2 horas. Na limpeza de têxteis, recomenda-se, no mínimo, um ciclo de lavagem com água quente (90 °C) ou a colocação do tecido numa solução desinfetante. Não há evidências de que a pulverização de um desinfetante por 20 a 30 segundos em um túnel, desinfete o que quer que seja.

Não há nenhuma evidência de que os túneis de desinfeção possam “atacar” a fonte do vírus. Depois de uma pessoa atravessar o túnel, a carga viral que ela carrega na boca, nariz e nas vias respiratórias – as principais fontes de exposição a outras pessoas – continua sem ser eliminada. O vírus, em partículas muito pequenas ou em gotículas minúsculas, pode persistir no ar por mais tempo do que se acreditava anteriormente e as pessoas, infetadas, continuam a ser portadoras do vírus, levando-o para o interior dos espaços, mesmo depois de atravessarem o túnel.

Efetuando uma análise mais profunda, alguns estudos e testes efetuados em unidades de saúde, onde a pulverização de desinfetante, nos quartos dos pacientes, não demonstraram nenhuma eficácia. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), apresentou avaliações de eficácia com base em outros vírus em 2003, 2008 e 2011, onde esses estudos foram revistos após o surto de SARS-CoV-2 e tendo como base esses relatórios, pode-se concluir que:

  • “Não pulverize desinfetante para fins de rotina nas áreas de atendimento ao paciente.” (ano 2003)
  • “Não pulverize desinfetante nas áreas de atendimento ao paciente.” (ano de 2008)
  • “São necessárias mais pesquisas para esclarecer a eficácia e a confiabilidade do spray, irradiação por UV e água ozonizada para reduzir a contaminação ambiental. (Sem recomendação/sem solução).”

Os produtos utilizados nos túneis de desinfeção apresentam efeitos nocivos para a saúde humana, pois os diversos químicos utilizados para a aspersão/pulverização, são conhecidos por causar danos nos seres humanos, tais como irritações nas mucosas, pele, olhos e vias respiratórias. Estes químicos são feitos para a aplicação em superfícies inanimadas e não devem ser utilizados no corpo humano.

A luz UV-C não se destina à desinfeção humana. A exposição à radiação UV-C pode causar efeitos nocivos para a saúde. Estes incluem a irritação da pele e dos olhos, queimaduras solares, lesões oculares, efeitos de irritação do trato digestivo e cancro. Olhar diretamente para a luz UV-C, pode causar danos na córnea. A desinfeção por UV-C só atuará sobre a superfície em linha direta de visão, respeitando o tempo de contacto. As áreas sombreadas ou cobertas por pó não serão desinfetadas, logo o seu efeito em humanos será inexistente.

Alguns produtos químicos biocidas desinfetantes e a radiação UV-C, provaram ser eficazes como agentes desinfetantes de superfícies quando utilizados como parte dos protocolos e processos de limpeza e desinfeção. Para que os químicos e a luz UV-C funcionem como desinfetantes eficazes, as áreas devem ser previamente limpas. Isto não é viável com os humanos!

Os riscos associados à pulverização de desinfetante nas pessoas variam de acordo com o agente biocida desinfetante usado, a concentração do desinfetante, o tempo de exposição e a vulnerabilidade da pessoa que entra no túnel, considerando fatores como a idade, condições pré-existentes, gravidez, etc. Ao existir uma grande probabilidade de irritação respiratória é algo muito preocupante, pois o vírus, SARS-CoV-2, tira proveito dos pulmões enfraquecidos. Além disso, seria difícil controlar com precisão os níveis de exposição a desinfetantes para os usuários, levantando preocupações adicionais. As consequências geradas por exposições repetidas ou a própria exposição do pessoal que trabalha nos túneis podem ser significativas e com danos irreversíveis.

Fontes: Health Care Without Harm e Pan American Health Organization (PAHO)

Saiba mais em: DEATHCLEAN

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